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Da semente à floresta

Formação de uma rede regional de viveiros de mudas
e um banco de sementes florestais nativas da Mata Atlântica do Vale do
Ribeira



O projeto abrange os município de Apiaí, Barra do Chapéu, Barra do Turvo,
Cajatí, Cananéia, Eldorado, Iguape, Ilha Comprida, Iporanga, Itaóca, Itapirapuã
Paulista, Itariri, Jacupiranga, Juquiá, Juquitiba, Miracatú, Pariquera-Açú, Pedro
de Toledo, Registro, Ribeira, Sete Barras e Tapiraí.

"Da semente à floresta" é uma ação de diagnóstico, capacitação e fortalecimento das atividades de produção de mudas desenvolvidas por comunidades no Vale do Ribeira e de mobilização social, educação ambiental e comunicação, com o apoio e suporte técnico de viveiro de essências nativas em parceria com a Universidade Estadual Paulista (UNESP), Campus Experimental de Registro. A demanda por estas ações foi evidenciada durante os primeiros meses da Campanha Cílios do Ribeira, desenvolvida em parceria pelo Instituto Ambiental Vidágua e Instituto Socioambiental, quando foi percebida a necessidade de produção de mudas de boa qualidade, dentro dos parâmetros legais vigentes e de melhorias de processos nos viveiros existentes, inclusive na formatação de Planos de Negócios.

A Campanha Cílios do Ribeira é uma das maiores e mais abrangentes iniciativas em ação na região do Vale do Ribeira com o princípio de sensibilizar as comunidades locais para os problemas relativos a qualidade das águas, através de um processo compartilhado e permanente de recuperação das matas ciliares da região, focado na geração de renda e desenvolvimento sustentável das comunidades locais. A parceria entre o Instituto Ambiental Vidágua e o Instituto Socioambiental, em conjunto com mais de 40 instituições públicas e segmentos sociais, está desenvolvendo um conjunto de grandes ações estratégicas para proteção das águas, que tenha como foco a geração de trabalho e renda e a reversão do quadro de degradação atual das matas ciliares do Vale do Ribeira, região que abriga o maior e mais conservado remanescente contínuo de Mata Atlântica do Brasil (23%).

Nos últimos 20 anos a região perdeu mais de 10.500 campos de futebol de florestas, somente na porção paulista da Bacia. O Rio Ribeira de Iguape, que outrora foi o berço da colonização do Brasil, encontra-se hoje ameaçado. Se não bastassem todos os problemas históricos associados às suas águas, suas margens a cada ano vêm sendo ocupadas por atividades incompatíveis à proteção dos recursos hídricos. Os dados apontam para uma destruição de mais de 500 campos de futebol de mata ciliar por ano, e as conseqüências já estão sendo sentidas, como o assoreamento dos rios, perda da qualidade da água, comprometimento da pesca e da renda das comunidades locais, aumento dos picos das enchentes, erosões das margens e empobrecimento do solo. Neste contexto e para equacionar seus problemas com relação à legislação vigente, a região precisa recuperar nos próximos anos uma área de 10.542,85 hectares.

O projeto ora apresentado envolverá diretamente os 23 municípios da Bacia, uma vez que a atuação desta proposta, que diga-se, complementa as ações estratégicas
maiores da Campanha Cílios do Ribeira, se dará por meio de 5 grandes linhas de atuação: (i) Inventariar a produção, equipamentos e comunidades que atuam em
cada município da Bacia sobre a produção de mudas e sementes, com estimativa
de quantidade produzida, diversidade e situação legal dos procedimentos; (ii)
Iniciar a formação de uma rede regional de viveiros e um banco de sementes, para
fornecimento adequado destes produtos florestais, visando atender as demandas
locais e as necessidades de outras regiões do Bioma Mata Atlântica; (iii) Capacitar
comunidades, técnicos de instituições públicas e lideranças locais em atividades
relativas a produção e plantio de mudas e coleta de sementes florestais; (iv) Instalar
viveiro de essências nativas na UNESP, no Campus Experimental de Registro, para
fins de pesquisa e capacitação; (v) Promover capacitação com gestores municipais
com foco em mobilização social, comunicação e educação ambiental.

São resultados esperados por este projeto: colaborar com os processos preconizados pelas Deliberações CRH 95 e 97/2009, notadamente a capacitação para a recuperação florestal e educação ambiental; contribuir com a Campanha Cílios do Ribeira; melhorar os processos de produção de mudas e sementes através de pesquisas e capacitação; auxiliar a geração de renda e trabalho, e engajar a sociedade nos processos compartilhados de restauração florestal da Campanha. Tais objetivos criarão juntos, a sustentabilidade financeira, política e social para continuidade das ações deste projeto e de outras ações de fortalecimento das comunidades locais e dos processos de recuperação de áreas degradadas.

Em que realidade o Projeto vai atuar
A área geográfica em que o projeto se insere

A Bacia Hidrográfica do Rio Ribeira de Iguape e o Complexo Estuarino Lagunar
de Iguape-Cananéia-Paranaguá, também conhecidos como Vale do Ribeira, está
localizada entre os Estados de São Paulo e Paraná, abrangendo 31 municípios sendo
9 paranaenses e 22 paulistas. O principal rio da região é o Ribeira de Iguape, com
mais de 470km de extensão, que desempenha um importante papel na vida e na
existência de uma diversidade de culturas tradicionais raramente vista em outras
regiões do Brasil como: comunidades pesqueiras caiçaras, índios, populações negras
remanescentes de quilombos e pequenos agricultores, vivendo basicamente do
extrativismo e da produção agrícola familiar.

A região abriga ainda, a maior extensão continua e conservada da Mata Atlântica
no Brasil. Desta área, 78% ainda estão cobertos por remanescentes originais,
com alto grau de preservação e endemismo. São 1.200.000 hectares de florestas;
190.000 hectares de restingas; 30.000 hectares de manguezais e 200 km de uma
costa recortada por um complexo de praias, estuários e ilhas, considerado pela The
World Conservation Union (IUCN), o terceiro ambiente de importância quanto à
produtividade marinha do Atlântico Sul.

Em 1998 o Vale do Ribeira recebeu da UNESCO o título de Patrimônio Histórico e
Ambiental da Humanidade, além disso, a região também integra as Áreas Piloto
referendadas da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. A região é considerada
ainda estratégica do ponto de vista da produção de águas, na sua grande maioria
enquadradas nas Classes: Especial; 1 e 2 (Resolução CONAMA), o que qualifica
o Vale do Ribeira como a maior e mais importante região produtora de águas dos Estados
de São Paulo e Paraná.

Em contraposição ao rico patrimônio ambiental e cultural, a região apresenta
os mais baixos índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país. Além dos
graves problemas sociais, a proximidade da região aos centros metropolitanos
de Curitiba-PR e São Paulo-SP, ameaça transformá-lo em fornecedor de bens
naturais de baixo custo, sem respeito ao patrimônio ambiental e cultural. Já existem
estudos em andamento (Plano Diretor de Abastecimento de Águas para a RMSP de
responsabilidade da SABESP – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São
Paulo) para transposição de águas dos rios Juquiá e São Lourenço, tributários do Rio
Ribeira, para o abastecimento público da região metropolitana de São Paulo.

O Vale do Ribeira apesar de possuir 51,66% do seu do território inserido dentro
de um sistema de proteção legal, através de um mosaico integrado de Unidades
de Conservação (UCs) marinhas e terrestres. São ao todo 24 UCs, como Parques;
Estações Ecológicas; Áreas de Proteção Ambiental/APAS entre outras, formando um
grande cinturão de proteção à biodiversidade e ao patrimônio cultural, histórico,
espeleológico, arqueológico e arquitetônico do país. São mais de 300 cavernas, sítios
arqueológicos, 150 monumentos, ruas e imóveis, tombados como patrimônio histórico
cultural, além de uma diversidade de espécies da fauna e flora, algumas endêmicas e ameaçadas de extinção.

A atividade de mineração ainda continua sendo um importante segmento para
a economia local. Mas as culturas de banana e chá são as principais atividades
econômicas da região. No entanto, a agricultura local passa por dificuldades,
não havendo registros de crescimento no cultivo desses produtos. São poucas as
empresas do segundo setor do Vale do Ribeira, existindo uma baixa absorção de mão-de-obra.

Algumas regiões passaram a explorar atividades imobiliárias relacionadas ao turismo
e lazer. A expansão não planejada deste segmento pode colocar em risco o meio
ambiente, da mesma forma que algumas atividades produtivas e extrativas que não
obedecem às normas legais, tornam expostas áreas de proteção e conservação.

Há no Vale do Ribeira um grave problema fundiário. A região possui a maior extensão de terras devolutas do Estado. Às terras julgadas devolutas incluem-se as áreas com planos de legitimação iniciados e áreas remanescentes de planos de legitimação não concluídos. A desregularização das áreas resulta em conflitos entre posseiros e proprietários, invasão e destruição de reservas entre outros problemas. Este problema gera enorme insegurança em relação ao domínio das propriedades, inibindo agricultores a investir em benfeitorias e ter acesso ao crédito.

Esse é apenas um dos fatores que torna o Vale do Ribeira uma das regiões com
menor índice de desenvolvimento do Estado, com baixa participação na formação do
valor adicionado, que em 1998 era cerca de 0,3%. - Valor Adicionado é o valor das
saídas de mercadorias, acrescido do valor das prestações de serviço no seu território, deduzido o valor de entradas de mercadorias, em cada ano civil, das atividades econômicas (indústria, comércio, transportes, comunicações, distribuição de energia elétrica e agropecuária) - O Valor Adicionado é utilizado pela Secretaria da Fazenda como um dos critérios para a definição do Índice de Participação dos municípios no produto da arrecadação do ICMS.

Outros problemas desestimulam as atividades agropecuárias tradicionais. O solo,
devido às condições climáticas, hidrológicas, geológicas e geomorfológicas, na maior
parte das áreas, é de baixa fertilidade. Apenas pequenas partes são indicadas para
o cultivo de lavouras anuais com níveis avançados de manejo. Esses fatores levaram a população a buscar novas alternativas como a pupunha, o maracujá, a criação de peixes e mais recentemente o cultivo do cacau, seringueira e criação de búfalos.

A caracterização do solo do Vale do Ribeira reflete suas particularidades climáticas, o
relevo plano de várzeas ou acidentado em rochas cristalinas. De modo geral a região tem poucas áreas com solos apropriados para agricultura e muitas áreas com solos apenas regulares. O solo é característico por sua baixa fertilidade devido ao excesso de água, além das limitações impostas pela mecanização, tanto pelo encharcamento, como pela existência de terrenos muito acidentados.

Com base nas características físicas dos terrenos como declividade, efeitos do clima
etc., pode-se avaliar a capacidade de uso das terras. Nota-se que a maior parte das
terras (70,56%) é inaproveitável ou pouco recomendada à agricultura e somente
29,43% são apropriadas para plantio e pastagem. Essas limitações do solo para a
agricultura e suas características ambientais, tornam bastante coerente a implantação de políticas de proteção e conservação do meio ambiente na região.

Os problemas a serem enfrentados

Como visto na caracterização geográfica da área, o Vale do Ribeira é protegido
por uma série de legislações e normas. Se pelo aspecto ambiental este fato é
extremamente positivo, quando pensamos no viés social e econômico nos deparamos com um problema: promover a geração de renda e a inserção social de forma sustentável. O Vale apresenta os menores índices de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de São Paulo e do Paraná, e na grande maioria das vezes não tem prioridade no repasse de recursos governamentais. A mudança de um paradigma extrativista, que foi e continua sendo à base de nossa sociedade capitalista, é um dos grandes desafios desta região. Facilitar aos diversos grupos que habitam o Vale uma alternativa que resulte em lucro e ao mesmo tempo esteja alinhada a um modelo de conservação, proteção e recuperação pode contemplar a sustentabilidade necessária. Mas, mesmo com todo o arcabouço legal, a realidade nos mostra que a região apresenta uma série de problemas ambientais.

A ocupação das margens dos Rios no Vale do Ribeira, principalmente o Rio Ribeira de Iguape, é conseqüência de um processo histórico combinado com as características ambientais da região, que concentra justamente nas áreas de APPs, as terras mais produtivas para as atividades agrícolas. Esta combinação devastou nos últimos 20 anos quase que todas as florestas ciliares, ocasionando como conseqüência problemas de assoreamento, contaminação das águas e aumento nos valores metrais das cheias.

A figura jurídica das Áreas de Preservação Permanente – APPs, enquanto áreas
existentes no interior de imóveis de domínio público ou privado que devem
necessariamente ter sua vegetação natural preservada, já existe no ordenamento
jurídico brasileiro desde, pelo menos, o Código Florestal de 1934, tendo sido
reiterada no “novo” Código Florestal (Lei Federal nº 4771/65) como um dos principais instrumentos de preservação dos recursos hídricos, de manutenção da estabilidade geológica e de conservação da biodiversidade.

Apesar de não ser uma figura nova, ou seja, apesar de já existir a várias décadas
a obrigação dos proprietários em preservar ou, quando ela não existir, recuperar a
vegetação nativa existente nas áreas consideradas como de preservação permanente (faixas marginais dos rios, margens de lagos e lagoas, encostas, topos de morros, bordas de tabuleiros, dentre outros), a realidade é que essa foi uma obrigação legal pouquíssima cumprida ao longo de todo esse tempo. Em quase todas as regiões do país, e mais notadamente nas regiões Sul e Sudeste, onde vive a maior parte da população do país, onde se concentra o maior número de cidades de médio e grande porte, e onde o território rural é mais densamente povoado, a situação das APPs é bastante crítica.

Segundo estimativas dos mapeamentos iniciais do Projeto "Ações Integradas para
Sustentabilidade das Áreas de Preservação Permanente" (SOS Mata Atlântica;
Instituto Ambiental Vidágua; Instituto Socioambiental; ArcPlan e Comitê de Bacia
Hidrográfica do Rio Ribeira de Iguape e Litoral Sul) existe um déficit de mais de
58,6% de mata ciliar, levando-se em conta apenas à calha do Rio Ribeira de Iguape
no lado paulista da Bacia. O relatório destaca que a pastagem foi à atividade
econômica que mais expandiu suas fronteiras sobre as áreas de preservação
permanente da região, ampliando sua área de 1.079 hectares em 1985, para mais de 1.900 hectares em 1999, o que corresponde a um aumento de mais 80% no período. A banana também é destacada neste estudo, e representa hoje a segunda maior pressão econômica sobre as APP’s, ocupando aproximadamente 11,39% destas áreas de proteção, o que representa mais de 2.240 hectares. O Vale do Ribeira possui um déficit de mata ciliar da ordem de 10.542,85 hectares, uma vez que 1.054,14 são ocupações já consolidadas, com cidades, estradas e áreas antropizadas mais densas.

A falta de planejamento urbano, associada à inadequada utilização do solo por
práticas agrícolas incompatíveis à região, com a substituição das matas ciliares por
plantações de banana, está comprometendo sensivelmente os processos naturais
do ciclo hidroecológico e potencializando consideravelmente os problemas regionais
relacionados às constantes enchentes. Sabendo que inúmeros estudos afirmam que a floresta ciliar é responsável direta pela proteção do solo, e que em áreas onde existe cobertura florestal, o solo absorve 90% da precipitação das águas da chuva, e que em solo desprovido de tal cobertura a porcentagem decresce para 35%, podemos relacionar que uma das conseqüências das constantes e cada vez maiores enchentes na Bacia Hidrográfica do Rio, pode estar diretamente relacionada à falta de cobertura florestal ciliar nas calhas dos rios da região.

Com as margens desprovidas de floresta e a ação das chuvas e do vento, o Rio
Ribeira de Iguape e seus afluentes sofrem com os processos erosivos de suas
margens e o assoreamento de suas calhas. Esta ação física de diminuição da
profundidade do leito do rio desacelera a velocidade de suas águas e provoca
significativas modificações químicas, alterações estas, que poderão estar influenciando decisivamente a migração de espécies da ictiofauna nos ambientes estuarinos e manguezais das áreas costeiras da região.

Estas alterações físicas e químicas transformam o rio, além de um vetor de
contaminação de doenças e impróprio para abastecimento público e navegação,
em uma grande "bomba-relógio" em potencial, pois como as cheias é um processo
natural, utilizado fundamentalmente para troca de nutrientes entre os ambientes,
alimentando assim o ciclo hidroecológico, sua amplitude aumenta a cada ano devido a pouca profundidade do rio, provocando destruição e infelizmente grandes tragédias.

Vale destacar também, que o Ministério Público do Estado de São Paulo já manifestou oficialmente seu posicionamento de cobrança institucional junto ao Comitê de Bacia Hidrográfica do Ribeira de Iguape e Litoral Sul, através do Oficio 1025/04 – PJRMA/macvc 08/11/2004, para adoção de todas as medidas cabíveis com vistas à divulgação da necessidade e obrigatoriedade de recomposição da mata ciliar com essências nativas ao longo do Rio Ribeira de Iguape. Existi ainda, por parte do Ministério Público um inquérito civil público (Portaria 01/97) solicitando ao DEPRN a autuação de todos os proprietários rurais que não estão com suas áreas de
preservação permanente em conformidade com a lei.

Não existe na região do Vale do Ribeira nenhum estudo de avaliação mais minuciosa
sobre os procedimentos relativos a produção de mudas e sementes. Sabe-se que as
atividades existentes são desenvolvidas em grande parte sem as técnicas adequadas e em desacordo com a legislação vigente, o que inviabiliza tanto a utilização da produção nos processos de reflorestamento regional, como para a comercialização com outras áreas do Bioma Mata Atlântica. Além disso, os procedimentos empregados de forma irregular no desenvolvimento das atividades, podem sim estar ajudando na destruição da biodiversidade e dos últimos remanescentes de mata ciliar que ainda podem ser encontrados na Bacia.

Justificativa

As deliberações CRH 95 e 97, publicadas em 2009, estabeleceram que os recursos
do FEHIDRO, em caráter de demanda induzida, devem contemplar a “revitalização
de bacias como tema estratégico e prioritário para a gestão de recursos hídricos,
uma vez que prevê a recuperação florestal, ações ligadas ao saneamento, drenagem
e educação ambiental”. Sendo assim, as Bacias Hidrográficas devem ter seus
diagnósticos, planos e projetos que implementem a recuperação de áreas degradadas, inclusive com a produção de mudas na própria região, e para tanto necessita que os diversos segmentos que compõem a diversidade social sejam envolvidos nestas ações, de maneira qualificada.

A Campanha Cílios do Ribeira já detectou que a região é em grande parte desprovida de equipamentos adequados para produção de mudas e sementes, e onde os mesmos são encontrados existe uma deficiência técnica e profissional, o que prejudica a qualidade dos produtos gerados e a diversidade dos mesmos. A legislação paulista através da Resolução SMA 08 de 07/03/2007 que altera e amplia as resoluções SMA 21 de 21/11/2001 e SMA 47 de 26/11/2003, fixa e orienta os projetos de reflorestamento para que os mesmos sejam heterogêneos, e recomenda uma diversidade de mais de 80 espécies florestais, quantidade difícil de ser alcançada por apenas um viveiro, o que reforça a necessidade do trabalho em rede. Viabilizar a produção de mudas e sementes na região, mais do que uma necessidade de adequação técnica e ambiental requer princípios legais obrigatório, e é neste contexto que o projeto proposto se insere, uma vez que ao avaliar a situação das atividades hoje empregadas em toda a Bacia do Ribeira, e os impactos ambientais e econômicos inerentes, bem com os seus pontos de conflitos e convergência, cria-se um cenário favorável à compreensão e emprego dos procedimentos corretos para o desempenho das atividades de coleta de sementes e produção de mudas, premissa fundamental, para um melhor e adequado uso sustentável dos recursos naturais.

Mais especificamente com relação à coleta e processamento de sementes, vale
destacar que existem poucos viveiros especializados nesta atividade no Brasil, e a
demanda para produtos qualificados aumenta a cada ano devido às necessidades
de recuperação de áreas degradadas e projetos de reflorestamento natural. Como
a região apresenta um enorme potencial para o desenvolvimento desta atividade, a
proposta de capacitação e orientação técnica, bem como a instrução de adequação
legal dos procedimentos se sustenta, e pode contribuir para geração de renda e
trabalho na região.

De acordo com mapeamentos que dão suporte à Campanha Cílios do Ribeira, o Vale
do Ribeira apresenta diversas áreas degradadas, que nos últimos vinte anos sofreram pressão imobiliária, de monoculturas ou extração de minérios. Uma alternativa para acelerar o processo de recomposição dos fragmentos é a introdução de mudas produzidas em viveiro. Entretanto, como ainda se conhece pouco sobre as exigências das espécies nativas da Floresta Atlântica, é necessário que se realize estudos que estabeleçam as relações entre variáveis ambientais e vegetação. Dentre os fatores ambientais que controlam o crescimento e desenvolvimento das plantas, a radiação solar destaca-se pela marcante influência na sucessão ecológica em uma floresta secundária, sendo a regeneração natural dependente da disponibilidade energética nos sítios. A interação entre a radiação solar e a vegetação em florestas tropicais tem sido avaliada em diversas pesquisas. O componente ambiental, porém, jamais poderá estar dissociado do social e do econômico, ou seja, não haverá margens dos rios e nascentes protegidas por florestas, se as pessoas que vivem nestas áreas e suas necessidades não forem levadas em consideração. É preciso entender a relação do ser humano com o elemento arbóreo, recuperando o conhecimento florestal dos agricultores.

A implantação de um viveiro de essências nativas da Mata Atlântica com finalidade de pesquisa e capacitação atende a esta demanda regional e ampliará o conhecimento a respeito do processo de produção de mudas seja ampliado, aprimorando e desenvolvendo técnicas num ambiente acadêmico-científico, especificamente no Campus Experimental da UNESP em Registro.

Este projeto pode auxiliar decisivamente na Campanha Cílios do Ribeira tanto na
inserção da temática da recuperação das matas ciliares na agenda regional, como
para abrir a possibilidade de que as ações inerentes a estes procedimentos possam se tornar atividades profissionais e regularizadas.

Público Alvo

Governos municipais, comunidades indígenas, quilombolas, pequenos agricultores,
produtores rurais, organizações não governamentais, instituições de ensino e
movimentos sociais.

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PROJETO VIABILIZA CONSTRUÇÃO DE UM VIVEIRO E UMA CÂMARA FRIA NA UNESP DE REGISTRO
Quem ganha são os alunos e as águas do Vale do Ribeira

(Publicada dia 16/08/2012 no portal Unesp!)

O Instituto Ambiental Vidágua, em parceria com a Unesp de Registro, com financiamento do Fundo Estadual de Recursos Hídricos através do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Ribeira de Iguape desenvolve o projeto “Da semente à Floresta”, que visa incentivar a proteção dos recursos hídricos e florestais da região do Vale do Ribeira envolvendo as comunidades e gestores locais na cadeia produtiva da restauração florestal. Patrimônio natural, socioambiental e cultural da humanidade, título conferido em 1999 pela Unesco, o Vale do Ribeira localiza-se entre os estados de São Paulo e Paraná, e abriga a maior extensão contínua e conservada de Mata Atlântica no Brasil. Mas nos últimos 20 anos, somente a porção paulista do Vale perdeu mais de 11 mil hectares de mata ciliar. Sem essa vegetação, a saúde dos rios e a qualidade de vida das pessoas estão comprometidas. O viveiro e a câmara fria, previstos pelo projeto, já estão funcionando no Câmpus Experimental de Registro. As primeiras trinta mil mudas produzidas serão doadas para recomposição de mata ciliar no Vale.

A Professora Francisca Alcivânia de Melo Silva, do curso de Agronomia da Unesp de Registro é responsável técnica pelo projeto “Da semente à Floresta”, e é quem cuida do viveiro construído na universidade. Segundo Alcivânia, ele possui três principais funções. A primeira é subsidiar a produção de 30 mil mudas e doá-las para a Campanha Cílios do Ribeira, até abril de 2013. As mudas serão utilizadas em plantios de reflorestamento de mata ciliar na bacia hidrográfica do Rio Ribeira de Iguape. A segunda função do viveiro é didática. Ele vai subsidiar as aulas de silvicultura e todas as aulas da parte florestal do Câmpus Experimental de Registro. Além disso, deve subsidiar pesquisas com espécies florestais de Mata Atlântica.

O viveiro foi inaugurado este ano, e desde o final de maio alunos do curso de Agronomia da Unesp de Registro trabalham e aprendem com ele. “O viveiro já está cumprindo sua função didática. Uma das principais deficiências do nosso campus, que ainda está começando, é a questão da prática. Os alunos sentem falta disso. Trabalhando no viveiro, eles vivenciam todas as etapas da produção da muda. Na disciplina de silvicultura, da grade curricular de agronomia, os alunos vão ajudar no viveiro e acompanhar durante todo o semestre vendo desde semeadura, quebra de dormência, até a produção da muda”, explica Alcivânia, que orienta os alunos no viveiro. Com pouco mais de dois meses de trabalho, o viveiro já possui 26 espécies de Mata Atlântica, semeadas ou germinadas em aproximadamente 15 mil tubetes.

Outra estrutura importante adquirida através do projeto “Da semente à Floresta” é a câmara fria de sementes, que vai subsidiar a formação de um banco de sementes de espécies nativas de Mata Atlântica. A ideia é prospectar quais são os viveiros e comunidades que trabalham com sementes e mudas e reunir essas pessoas para montar um banco de sementes na Unesp de Registro. “Nós vamos abrigar a estrutura da câmara fria, mas ela deve ser partilhada com as comunidades e todos que tiverem interesse em guardar as sementes, que também poderão ser trocadas”, lembra a professora. “Para nós, o viveiro e a câmara fria são duas estruturas essenciais. E nesse caso a parceria com o Vidágua foi muito importante para viabilizar o recurso. O Vidágua entrou como know-how que tem com projetos ambientais e nós com a parte técnica, e conseguimos que o Fundo Estadual de Recursos Hídricos, FEHIDRO, aprovasse o projeto. Só temos a agradecer”, diz Alcivânia.

PROJETO FAZ INVENTÁRIO DA PRODUÇÃO DE MUDAS E DISCUTE FORMAÇÃO DA REDE REGIONAL DE VIVEIROS

(Publicada dia 28/09/2012 no Jornal Regional (versão impressa) e no site do Jornal!)

Por Margarete Micheletti
Registro

Um inventário sobre a produção de mudas nos viveiros existentes na região está sendo realizado pelo projeto “Da semente à floresta: formação de rede regional de viveiros e banco de sementes florestais nativas da Mata Atlântica”, em execução desde março deste ano pelo Instituto Ambiental Vidágua, em parceria com a Unesp de Registro. Cerca de 20 viveiros já foram visitados nos municípios de Iporanga, Cananéia, Iguape, Registro e Juquiá, com levantamento de dados sobre as espécies produzidas, os sistemas de produção e manejo, a origem das sementes, a forma de coleta e armazenamento, a situação dos viveiros em relação a cadastro e certificação, entre outras informações.

O levantamento deve chegar a cerca de 30 viveiros, comerciais e comunitários, que constam em mapeamento divulgado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente por meio do Projeto de Recuperação de Matas Ciliares. “A partir desse trabalho do inventário é que serão desenvolvidas as atividades de capacitação até chegar à discussão da proposta da formação de uma rede regional de viveiros do Vale”, explica a engenheira agrônoma e professora da Unesp de Registro, Francisca Alcivânia de Melo Silva, coordenadora técnica do projeto.

A rede cumpriria a função de integrar os diversos equipamentos comerciais e iniciativas comunitárias existentes na região e que hoje atuam isoladamente e enfrentam diversas dificuldades para atender à demanda crescente do mercado de espécies florestais nativas. “Grande parte dos viveiros não tem um plano de negócio estruturado, outra parte não é certificada ou não tem registro, alguns viveiristas não foram capacitados para a produção e o manejo adequados, enfim, há um potencial enorme neste setor que precisa ser estruturado como negócio para não funcionar mais apenas como um simples bico”, comenta a coordenadora.

A produção de espécies florestais nativas é considerada hoje um filão de mercado e o Vale do Ribeira, em função de suas características ambientais, tem as oportunidades para organizar este segmento. “A região tem o melhor banco de sementes que existe, tem a Mata Atlântica, tem o trabalho das comunidades, tem a demanda crescente dos projetos de reflorestamento. Precisa se estruturar para aproveitar as oportunidades”, ressalta Alcivânia.

Banco de sementes | Na próxima fase, o projeto irá promover a capacitação de técnicos, gestores e viveiristas sobre temas como legislação, arborização, produção de mudas, coleta e armazenamento de sementes florestais e certificação de mudas. Os cursos serão sediados na unidade didática construída pelo projeto - o viveiro instalado no campus da Unesp, localizado às margens da BR-116. O viveiro já está cumprindo essa função, subsidiando a parte prática da disciplina de Silvicultura do curso de Agronomia.

Cerca de 10 mil mudas de diversas espécies estão sendo produzidas por alunos estagiários e voluntários da Unesp. A meta é produzir 30 mil mudas de 80 espécies nativas até o final do projeto, em meados de 2013. As mudas serão doadas para a Campanha Cílios do Ribeira, que promove ações e projetos de plantios para recomposição de matas ciliares na área de abrangência do Comitê da Bacia Hidrográfica do Ribeira de Iguape e Litoral Sul (CBH-RB).

O projeto instalou também uma câmara fria no campus para dar suporte à formação de um banco de sementes de espécies nativas da Mata Atlântica. “Toda essa estrutura montada ficará disponível para os viveiristas e as comunidades poderem armazenar suas sementes”, explica a professora da Unesp. Com financiamento do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro) e apoio do CBH-RB, o projeto “Da Semente à Floresta” abrange os 23 municípios da região de abrangência do Comitê.

REDE DE VIVEIRISTAS NO VALE DO RIBEIRA
Proposta é apresentada em evento de viveiristas no PERT

(Publicada dia 06/12/2012 no site do Vidágua!)

No último dia 29, quinta-feira, um evento no Parque Estadual Rio Turvo (PERT), localizado nos municípios de Barra do Turvo, Cajati e Jacupiranga, no Estado de São Paulo, reuniu viveiristas da região do mosaico Jacupiranga, que abarca 14 unidades de conservação. O objetivo foi promover a troca de experiências entre eles. Um voluntário do projeto “Da semente à Floresta” aproveitou a ocasião para apresentar a proposta de criação de uma rede de viveiristas, facilitando assim a união e a troca de experiências e informações entre os viveiros da região do Vale do Ribeira, no litoral sul de São Paulo.
A rede tem a intenção de articular os viveiristas para criar um banco de dados de mudas e de sementes. As sementes ficarão armazenadas na câmara fria da Unesp de Registro, viabilizada através do projeto “Da semente à floresta”, com financiamento do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (FEHIDRO). No banco de dados, cada coletor ou viveirista terá um registro de identificação, contendo a quantidade e variedade de sementes que tem guardadas na câmara fria. Os tipos de mudas que possui também estarão registrados no banco de dados. 


Ouça o spot de divulgação do projeto aqui!

Confira as fotos do viveiro e da câmara fria na Galeria de Imagens clicando aqui!

Clique aqui para baixar o arquivo.

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